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sexta-feira, 30 de abril de 2010

Defeito de Psicólogo

Foto: Google Imagens

Para muitos, psicólogo não pode ter defeitos ou problemas e não poder tê-los já um defeito. Que horror não ter esse direito tão humano...!
Todos podem ter defeitos e sempre serão um ser humano normal com problemas, mas se for psicólogo não é um ser humano com problemas, porque ele não é ser humano, ele é um “psicólogo com problemas”.
Se você está ansioso, tudo bem, é um ser humano passando por um momento difícil, mas se eu estivesse ansiosa seria um absurdo, porque eu não passaria de uma “psicóloga ansiosa”.

Estava contando a duas amigas que algumas pessoas, profissionais de psicologia, tinham alguma restrição em se abrir por serem sempre confundidos com super heróis da emoção e se tinham algum problema e falavam sobre ele, eram mal vistos e mal interpretados, “porque psicólogo não pode ter problemas”. Ou seja, o mesmo fato que os fortalece aos olhos dos outros, os deixa expostos e fragilizados. E quando alguém ouve isso não ouve de uma ser humano fragilizado, ouve de “um psicólogo fragilizado”. Mas as duas discordaram da minha explicação, é claro.

Ironicamente, numa discussão dez dias mais tarde, uma dessas duas amigas me disse agressivamente, “você é ‘a psicóloga mais paranóica’ que eu já vi”. Porque ela não disse a “pessoa mais paranóica”? hehehe Eu não estava desempenhando minha profissão com ela e nem estava sendo psicóloga na hora do desentendimento.
Da forma que ela falou, a ofensa não vai só para a pessoa, ela vai também e principalmente para a parte profissional. É um desrespeito duplo, uma ofensa dupla.
Agradeço a parte que me toca. No bom sentido, uma certa “paranóia” é algo importante para tornar um profissional da minha área mais competente.

A verdade é que quem não quer enxergar nada e vive nas nuvens se incomoda com quem quer ver demais.
Enquanto isso eu me trabalho para não precisar de ninguém para me guiar e me mostrar o caminho. Tento enxergar cada vez mais os sinais e entender o ser humano, matéria prima do meu trabalho.

Teóricos falam que o que nos faz mais capazes de ser um instrumento de auto conhecimento é justamente a nossa humanidade, sermos capazes de experimentar os sentimentos inerentes ao ser humano, ao ser que está alí, na nossa frente, no sething terapêutico.
Nos diferenciamos muitas vezes pela forma de estar, de passar pelo problema com maior preparo e em ter a exigência e urgência em sermos mais maduros porque nos sentimos com a responsabilidade na vida de ajudar também o outro a amadurecer. Mas podemos experimentar indignação, dúvida, tristeza, medo.

Talvez o meu maior erro foi tentar fazê-la enxergar o que ela não estava querendo e nem preparada para isso. Nessa momento, talvez eu tenha deixado meu lado psicóloga me trair, meu lado "psicóloga ansiosa".
Eu fico pensando... Por que será que eu gosto tanto daquela frase, “para bem entendedor meia (...)?

Cintia Liana


Por que não atrelar o adjetivo à pessoa e sim ao psicólogo? É porque ele tem a obrigação de ser perfeito? De estar acima do bem e do mal?
Quer saber, meu bem, sobe no ônibus, sobe?

Foto: Google Imagens

Amanhã vai ter alguém dizendo, "uma psicóloga colocando esta foto do ônibus deste bairro aí...?"
Essa pessoa tem que subir no ônibus e ir até o fim de linha. hahaha

Por Cintia Liana

quinta-feira, 4 de março de 2010

Dar conselhos não é profissão, conselho se dá de graça


Fotos: A psicóloga Cintia Liana em entrevista

Dando continuidade às reflexões sobre o que sofrem os psicólogos com a falta de informação do que seja tal profissão, tenho outra consideração a fazer.
Já ouvi a frase: “ela era a psicóloga e eu é quem estava dando conselhos”. Essa frase é tão estúpida que chega a ser engraçada.
Para dar conselhos basta abrir a boca (sei que existem pessoas que nos iluminam com suas palavras em determinados momentos) e para ser psicólogo se deve estudar 5 anos, fazer pós graduação, psicoterapia e outros tantos estudos para não cair na mediocridade.

Em primeiro lugar psicólogo não dá conselhos, “ele te dá uma lanterna, para você achar o caminho meio a escuridão que pode estar instalada em determinado momento, em determinada situação”.
Se essa pessoa soubesse um pouquinho da complexidade desta profissão jamais diria tal besteira.
Vou mostrar então um pouquinho desta complexidade.
  • Para ser um psicoterapeuta precisa-se ter em mente não só a necessidade da neutralidade, mas prioritariamente o entendimento de que neutralidade absoluta não existe. O psicólogo não é uma caixa preta, livre da subjetividade, ao contrário. Gonzáles Ray (apud SILVA, 2008) explica que ele faz parte do cenário. O que faz dele competente não é a neutralidade, é a consciência do lugar dele naquele cenário, como ele pode funcionar ali da melhor forma e ajudar o paciente a se dar conta do que é necessário para o seu crescimento.
  • É indicado que o psicoterapeuta faça terapia não só por que precisa experimentar o caminho da subjetividade, da transpessoalidade, sentir que existe um grande material inconsciente, mas também para saber qual é o seu lugar dentro de cada história, como cada história que ouve o toca, se toca, por que e como pode entender isso. Ou seja, além de ser uma busca da subjetividade é um reconhecimento da vivência desta subjetividade.
  • Existe a modalidade “aconselhamento psicológico” dentro da área, mas ainda assim não se trata conselhos. O profissional, no geral, auxiliará a pessoa a achar o caminho mais maduro, dentro de um sentido maior da situação, que será processado no sething terapêutico.
  • Na psicoterapia ninguém te dirá em como fazer nada e nem se baseará em tuas experiências pessoais, pois o psicólogo não faz isso, por mais que suas experiências o tenham ajudado a construir o seu self. O profissional conhece um conjunto de seus pressupostos teóricos, epistemológicos, é cuidadoso e sensível à sutileza das características singulares da subjetividade, onde podemos encontrar o passado e o presente e todos os aspectos da existência. (SILVA, 2008)
  • No sething o profissional pode auxiliar “na integração de elementos de sentido e de significação que caracteriza a organização subjetiva de um âmbito da experiência do sujeito, ação, construção, história, transações e trocas sociais e cultura como configurações subjetivas da personalidade. É um complexo de articulações e possibilidades contraditórias e processos de ruptura. Está ligado à diversidade de questões presentes no sujeito cotidiano, irregular.” (SILVA, 2008)
  • Ele terá consciência dos mecanismos de defesa do paciente, de algumas memórias anteriores relatadas, ajudará a fazer livres associações, a enxergar sua sombra, reforçar aspectos positivos, entender os padrões, te situar dentro dos grupos, dos sistemas, ver tua função e papéis em que está assumindo dentro da cada grupo e muito, muito mais.
Então por favor, dê conselhos, mas não desqualifique o psicólogo que te ouve. Por mais que sejam bem vindos em alguns momentos e que alguns amigos o façam com muito boa intenção, nos ilumine e que eles ajudem bastante, mas a verdade é que os conselhos falam muito mais da gente do que de qualquer outra coisa, mesmo que ajudem. Não pagamos por conselhos e nem precisamos estudar para aconselhar ninguém.
Com todo respeito às outras profissões, mas ainda temos que ouvir que manicure é meio psicóloga, aquela certa amiga também, a secretária, o taxista... O mundo é repleto de gente que quer ouvir uma história interessante, transformar algumas em fofoca e dizer o que acha para se sentir mais sábio. O mundo está cheio de “achismos” também. Para se ajudar alguém e atendê-la em seus questionamentos e anseios é preciso ter noção da grande responsabilidade disto, de respeito pela vida alheia e de preparo adequado.
Se a profissão de psicólogo se resumisse em dar conselhos, ouvir e em ser experiente nem existiria faculdade para isso e nem as diversas especializações, era só esperar uma boa idade chegar e se intitular tal profissional.

Fecho com um pensamento de Hermann Hesse que resume tudo isso:
"Nada lhe posso dar que já não exista em você mesmo.
Não posso abrir-lhe outro mundo de imagens, além daquele que há em sua própria alma.
Nada lhe posso dar a não ser a oportunidade, o impulso, a chave.
Eu o ajudarei a tornar visível o seu próprio mundo, e isso é tudo."


Referência: (Minha Monografia da pós)
Silva, Cintia L. R. de. Filhos da Esperança: Reflexões sobre família, adoção e crianças. Monografia do curso de Especialização em Psicologia Conjugal e Familiar. Faculdade Ruy Barbosa: Salvador–BA, 2008.

Foto: Carl Gustav Jung, médico e psicólogo

Carl Gustav Jung (1875-1961) foi o fundador da escola analítica de Psicologia. Um dos maiores psiquiatras do mundo, fundador da escola analítica de Psicologia, ele introduziu termos como extroversão, introversão e o inconsciente coletivo.
Jung ampliou as visões psicanalíticas de Freud, interpretando distúrbios mentais e emocionais como uma tentativa do individuo de buscar a perfeição pessoal e espiritual.

Por Cintia Liana

segunda-feira, 23 de novembro de 2009

Todo psicólogo é louco? Não se iluda. Nem um pouco!

Foto: Google Imagens

“De médico e louco todo mundo tem um pouco”. Essa frase é bastante conhecida e se extendeu aos psicólogos porque vinha dos psiquiatras, profissão afim. Freud também disse “de perto ninguém é normal”. Concordo e nem gosto da palavra normal.

Mas daí, inventaram de repetir a asneira que todo psicólogo é meio doido. Nada contra os loucos, mas verdade seja dita, ficar falando isso de forma desqualificatória, descuidada, jocosa e pejorativa é, no mínimo, tolice.

Muitas vezes um louco é bem mais lúcido que um pseudo equilibrado que se intitula "normal".

Normal? Que palavrinha mais medíocre e seu conceito é bem arbitrário. Nunca quis ser normal.

Outra confusão é a idéia contrária. Achar que um psicólogo é incompetente em seu ofício só porque é espontâneo em seus momentos de lazer.

Acontece que ao invés de repetir asneiras diversas, porque não questionamos a repetição e o que estamos falando?

Normalmente as pessoas, formadas em psicologia, percorrem um caminho que envolve se submeter a processos psicoterapêuticos, ver e estudar a doença mental de perto. Aprendem que enxergar que por trás das melhores aparências podem morar histórias bem mal resolvidas, ter a certeza de que todos nós maquiamos a realidade e que sonhos são verdadeiros “mapas da minha”.

Sabemos que nada em nossa vida passa despercebido, que nada é tão simples e que não esquecemos absolutamente nada, nós guardamos em alguma gavetinha do nosso inconsciente, com uma plaquinha do lado de fora indicando que tipo de sentimento se refere àquele material guardado.

O ser que estudou psicologia com afinco e mergulhou em suas profundezas de alguma forma ou com algum trabalho transpessoal direcionado, tem a certeza de que entre o céu e a terra há mais mistérios do que a nossa vã filosofia é capaz de imaginar, assim como disse o grande gênio Shakeaspeare.

Portando, por esse saber e entender, esse indivíduo psicólogo pode ver a vida de forma um pouco diferente. Louco? Não, nem um pouco! Ele só tem uma tendência e ter relação mais estudada com o externo, observa o contexto por uma ótica mais científica, mais requintada digamos, treinada, como se usasse uma lupa imaginária. E quando esse psicólogo deflagra algo que um alguém não quer ver ou não concorda, então esse alguém se rebela, pois não queria ter consciência daquilo. Natural, é difícil se encarar.

Esperam que ele seja sério, concentrado, sorria contidamente, fale com clareza, não tenha dúvidas sobre nada, muito menos problemas pessoais. Será que existe alguém assim? E se ele é muito sério no lazer ou muito exigente em seus gostos pessoais o chamam de chato.

Costumam exigir um equilíbrio inexplicável dos psicólogos ou acham que todos são meio loucos. Eles não podem ter falhas? Isso significaria falhar em seus consultórios? Um médico não pode ter problemas de saúde, um economista passar por uma crise financeira ou um advogado sofrer um processo?

Psicólogos podem sim, ter dúvidas e problemas, mas o que vai diferenciá-los talvez das outras pessoas é a forma de resolvê-los, entendê-los, solucioná-los e manejá-los. Ser psicólogo pode facilitar, mas ele continuará sendo humano, cercado de outros humanos que constroem a vida com ele.

Será que dá para olhar uma pessoa alegre, em seu momento de lazer e só porque ele é psicólogo dizer: “Esse aí é meio maluquinho para ser psicólogo”?

A pessoa que faz esse “diagnóstico” com um CID* inventado na hora compara a alegria e a espontaneidade à loucura e ainda julga esse estado humano como incompatível com a profissão desse alguém, como se este alguém estivesse atuando como psicólogo 24 horas?

Além do mais, aprendemos na faculdade que o que faz de nós capazes de sermos um psicólogo com excelência e ter a capacidade de empatizar é justamente  sermos humanos e provar das mesmas delícias e dores que qualquer um que vem até nós pedir ajuda. No consultório, vestindo a “função”, treinados e munidos de teoria e sensibilidade é que vamos construir com o paciente um caminho de reconhecimento de tudo que é verdadeiro e que faz mais sentido para ele, e assim encontrar saídas em busca de  amadurecimento.

No geral, as pessoas insistem em duvidar dos outros. Costumar duvidar da capacidade tecnica de um psicólogo, julgando-o em seus momentos de lazer, pode significar “jogar a toalha” e dizer, “nunca farei terapia, não posso confiar num psicólogo, que é humano igual a mim”. Na verdade essa atitude mostra que você já duvida do humano mais importante: você!

*CID – Código Internacional de Doenças. Cada doença tem um código de identificação, que consta num livro (Manual).

Por Cintia Liana

Foto: Google Imagens

E por falar em julgar lúcidez e loucura, Clarice Lispector novamente me surpreende, "puxa-me pela mão e me mostra outra coisa linda que compôs":

"Sou composta por urgências: minhas alegrias são intensas; minhas tristezas, absolutas. Me entupo de ausências, me esvazio de excessos. Eu não caibo no estreito, eu só vivo nos extremos. Eu caminho, desequilibrada, em cima de uma linha tênue entre a lucidez e a loucura. De ter amigos eu gosto porque preciso de ajuda pra sentir, embora quem se relacione comigo saiba que é por conta-própria e auto-risco. O que tenho de mais obscuro, é o que me ilumina. E a minha lucidez é que é perigosa".

Foto: Mônica Montone Por Rogério Felício

Dentro do mesmo assunto, lembrei de um texto de uma grande amiga, *Mônica Montone:

..."Não acredito em Arte que não transforma, nem acredito em terapia que não atue no campo da mudança, mas na área das explicações causais. Assim como não acredito em boas intenções sem segundas intenções, tampouco loucura reluzente em néon na testa de qualquer careta que se diz doidão.

O verdadeiro louco, para mim, é o bufão, o louco do Tarot. Aquele que tudo sabe e nada diz. Aquele que aprendeu a olhar, mergulhar e conviver com seus dramas. Aquele que sabe usar a palavra certa para cada tipo de ouvido. Aquele que quer ir para o norte e vai, sem desviar, mesmo pegando atalhos. Aquele que sabe o momento exato de se calar. Aquele que sabe que as agressões nada mais são do que incapacidade de lidar com medos e frustrações e por isso espera, calmamente, o tempo do outro de chegar à leveza. O que diz coisas duras, sem perder a ternura jamais.... O que descobriu um caminho para a transformação do metal em ouro e gentilmente convida o Outro para um passeio pela mesma floresta... O que não pretende responder nadar, saber nada, mas, sentir e perceber tudo.... Não o candidato à vaga de artista só para demonstrar que é contra o sistema, para sair do anonimato ou para comer alguém...

Sei que é um trocadilho infame, mas, acredito que Arte não se faz com arte [leia sapequice].... Se faz com calma, alma, sangue, sublimação e anseio de transformação..."...

Lucidez e loucura, conceitos socialmente complicados, misturados com *preconceitos, medo de conhecer e preguiça de pensar.

*Preconceito (Dicionário Houaiss) - 1. Julgamento ou opinião concebida previamente. 2. Opinião formada sem fundamento justo ou conhecimento suficiente.

Por Cintia Liana